Carlos Reis
21/12/2018
Artigo de opinião

Perfazem cerca de 7 meses que no passado dia 15 de Maio um grupo de dezenas de pessoas, de cara tapada, confessadamente adeptos do Sporting Clube de Portugal, invadiu as nossas instalações em Alcochete, com flagrante perturbação da ordem pública, protagonizando actos inqualificáveis de enorme gravidade e violência. Estes encapuzados agrediram vários dos nossos atletas, os membros das respectivas equipas técnica e médica, e provocaram um generalizado clima de alarme social, com repercussão internacional, tendo lesado gravemente a imagem reputacional e os interesses patrimoniais e desportivos do Sporting. Do processo de inquérito criminal entretanto aberto em consequência destes acontecimentos estão já indiciados vários crimes públicos, nomeadamente sequestro, ofensa à integridade física qualificada, introdução em lugar vedado ao público, dano com violência, terrorismo, resistência e coacção sobre funcionário. Para o nosso embaraço colectivo ser ainda maior, o anterior presidente do Sporting, entretanto destituído democraticamente pelos sócios, e disciplinarmente suspenso, é arguido neste mesmo processo como sendo um dos seus responsáveis. O anterior presidente do Sporting, o líder da Juventude Leonina, e um ex-funcionário, estão acusados pelo Ministério Público como autores morais destes crimes. O líder da Juventude leonina está também acusado de um crime de tráfico de droga, que aliás foi apreendida precisamente nas instalações da claque. Este não foi portanto apenas um incidente de particular gravidade: esta é uma mancha insuportável na nossa gloriosa história. Longe de relativizar ou de tentar esquecer este assunto tem de estar bem presente na nossa actuação, para dele retirarmos por fim todas as ilações, que ainda, por natural exaustão e compreensível reconhecimento da ligação histórica da Juventude Leonina ao Sporting, não foi ainda cabalmente assumido por todos nós, com todas as suas implicações. Mas convém também registar que este acontecimento vem infelizmente culminar outros recentes fenómenos de violência no seio do meio desportivo, por parte de outros universos clubísticos rivais, e que criaram igualmente sentimentos de insegurança na nossa sociedade. Isto responsabiliza assim também os outros clubes. Mas responsabiliza igualmente os nossos órgãos de soberania. A globalização do Futebol e a sua crescente importância sociológica e económica, e a força da sua implantação no país, deve obrigar o poder legislativo e o poder executivo a repensar o seu enquadramento legal à luz das exigências da paz social e da ordem públicas. Embora reconhecendo o contributo inestimável que os principais clubes de futebol profissional dão para o fomento da prática desportiva e para a projecção internacional do país, não pode deixar de registar-se que demasiadas vezes o futebol é um factor de divisão, de tensão, de insegurança. Precisamos de mais festa, de mais alegria e de mais famílias no futebol, e de menos tochas, cintos, paus e bastões. Demasiadas vezes em dias de derby a normalidade da vida na cidade de Lisboa, ou do Porto, fica suspensa, com graves constrangimentos na circulação viária e restante mobilidade, e com prejuízo do funcionamento da vida económica, decorrentes da necessidade de reforço maciço de policiamento, configurando verdadeiras operações quasi-militares. Erradicar a violência nos recintos desportivos e fazer imperar a segurança no meio desportivo torna-se pois um objectivo imperioso e urgente. Há sete meses o Sporting Clube de Portugal foi vítima de actos inaceitáveis de violência e de vandalismo ocorridos nas suas instalações, cujos responsáveis aguardam ainda por justa punição. Mas no actual clima do futebol português nenhum outro clube estará livre de outra situação deste género. Tal poderá ocorrer noutro momento qualquer. Por isso o Governo e a Assembleia da República deverão avaliar e adoptar novas medidas contra a violência no desporto, designadamente quanto ao actual enquadramento legal, equacionando o reforço das respectivas molduras penais e a adopção de novas medidas de segurança preventivas. O Governo deverá reequacionar o actual modelo legal que enquadra os Grupos Organizados de Adeptos, vulgo claques, designadamente revendo as regras de relacionamento destes grupos com os respectivos clubes, estabelecendo igualmente novos mecanismos efectivos de responsabilização, e determinando um novo registo sistematizado e actualizado dos adeptos com verificação sistematizada de antecedentes, e inclusive prevendo um mecanismo expedito de dissolução judicial das Associações que representam a fachada legal das claques, em caso de envolvimento destas em acções de planeamento e de execução de atentados à ordem pública, como aquele que se verificou em Alcochete, ou de infiltração comprovada por elementos ao serviço de ideologias ou de movimentos anti-constitucionais. Não é apenas o Sporting que é aqui parte interessada: são os principais clubes desportivos nacionais sedeados em Lisboa, no Porto, em Braga, em Guimarães, ou em qualquer outra cidade. E é o país no seu todo. Há que devolver ao desporto, em geral, e ao futebol, em particular, o clima de tranquilidade e de sã convivência indispensáveis à vivência numa sociedade civilizada. Somos adeptos de futebol não somos soldados nem bandidos. Somos sportinguistas temos um dever maior de constituir um exemplo de bem. Somos portugueses temos o dever de proteger a Lei e a Ordem.

 

 

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