Carlos Reis
07/02/2019
Artigo de opinião

A nossa memória emocional raramente coincide com a verdade factual. Não é apenas um problema de memória curta: é um problema (muito humano) de tentativa de edificação mental de um percurso em que a realidade que vivemos faça sentido. Vem isto a propósito do futebol, e para o caso dos meus queridos companheiros sportinguistas, vem isto também a propósito da verdade dos factos.

Vamos portanto aos factos: vivemos um mau momento no Futebol, e isso é inegável. Detestamos perder, especialmente contra o Benfas. Não vencemos um único dos 7 jogos com os 3 primeiros classificados da Liga (e apenas em 2 desses jogos a equipa foi treinada por José Peseiro…). Temos apenas 2 vitórias nos últimos 10 jogos disputados. A nossa posição classificativa é a que é: um 4º lugar sofrível (a 11 pontos do FCPorto e a 8 do Benfica). Estamos mais perto de descer ao 5º lugar (+ 5 pontos que o Moreirense) do que de alcançar o 3º (- 7 pontos que o Braga). Temos 24 golos sofridos em 20 jogos, o que dá uma média incrível de mais do que um golo por jogo. Encaixamos nesta época mais do que o dobro dos golos sofridos pelo Porto (11) – e a nossa defesa está ao nível da do Moreirense. As equipas do Vitória de Guimarães, do Belenenses, e do Vitória de Setúbal, têm defesas mais sólidas do que a do Sporting. E isto da defesa do Sporting é um pedregulho a puxar-nos para o fundo, do qual nos desembaraçamos ou correremos o risco de mergulhar no abismo.       

Estes são pois os números AGORA.

Mas por isso mesmo, se nos deixarmos tomar exclusivamente pela emoção, é natural que a nossa memória emocional nos impeça de encarar a realidade do Sporting pelo seu todo.

Em primeiro lugar, a realidade do calendário: já vencemos um dos 3 títulos nacionais em disputa, ainda estamos por dentro da possibilidade de passar à Final da Taça de Portugal (segunda mão em Abril) e ainda estamos a disputar a Liga Europa.

Em segundo lugar, o enquadramento: não vamos revisitar pela enésima vez o trauma de 15 de Maio passado em Alcochete, do Verão quente e infernal que vivemos depois, e de todas as carambolas do destino que nessa altura fomos sujeitos. Mas importa não esquecer para perceber.    

Quero com isto relativizar o nosso mau momento, indulgenciar a equipa técnica ou desculpar a Direcção e o Presidente do Clube por erros destes meses? Não quero.

Existem erros: é incompreensível que a Auditoria Forense aos mandatos da Direcção anterior ainda não tenha sido apresentada. Sem o apuramento cabal dos factos esta Direcção não tem caminho livre e legitimidade total para traçar eficazmente o seu rumo: os sócios têm de poder determinar a responsabilidade respectiva de cada um. O treinador parece que se perdeu algures, na viagem de Guimarães até Lisboa, quando da sua primeira derrota. Também não me parece que a estrutura do Sporting o esteja a enquadrar devidamente sobre a ecologia tóxica do futebol português. Vivemos com alguma angústia o definhar da formação do Sporting e não se vislumbram grandes sinais de inversão disso, nem vemos ainda inputs qualitativos de Keizer na valorização dos novos jogadores do Sporting. E podemos constatar com natural irritação as deficiências da estratégia de comunicação do Presidente e da Direcção do Sporting.

O Presidente do Sporting é um médico de formação, tem boa imagem, concita simpatias naturais de todos, mas não é propriamente um artista da palavra: logo precisa de media training. Não é mal nenhum admitir: numa estrutura sólida e profissionalizada a comunicação por parte do Presidente e da sua restante Direcção é um importante factor de mobilização da Nação Leonina e é um instrumento incontornável de defesa do Clube.

Infelizmente no meio poluído do futebol português a defesa do Sporting também passa pela comunicação, pela palavra, pelos momentos em que se fala, pelos protagonistas – não nos devemos desculpar com arbitragens mas devemos ser implacáveis na denúncia da podridão do sistema. Ontem, no jogo da meia-final, assistimos a mais algumas palhaçadas da arbitragem em campo, que tiveram impacto no resultado. O que aconteceu com o castigo cirúrgico do Ristovski em Setúbal e comunicação da decisão disciplinar subsequente de redução da pena, já em cima do jogo na Luz, é motivo de vergonha e de denúncia enérgica – isto é dolo intencional contra o Sporting. E o conluio da Comunicação Social desportiva com os interesses do Benfica (a recente elevação ao altar das glórias pátrias do novo “menino de ouro” do Benfica, já inflacionado com miragens futuras de dezenas e dezenas de milhões, é apenas só mais um caso exemplar…) implica uma luta implacável no tabuleiro onde se ergue o actual Império de poder encarnado.

São pois algumas as insuficiências e deficiências evidentes desta actual Direcção que têm de ser corrigidas com urgência.

Mas é já caso para perdermos todos a cabeça? Obviamente que não!

E lá vem outra vez o problema da memória: na época de 2016/17, na segunda época de Jorge Jesus, com os mesmos jogos realizados estávamos precisamente a 10 pontos do SLB e a 9 pontos do FCP. Já tínhamos ido à viola na Taça da Liga, na Europa, e na Taça de Portugal. Gastámos rios de dinheiro, tínhamos uma equipa incomparavelmente superior, tínhamos um treinador que era o grande mestre da táctica, que conhecia os cantos à casa, e que tinha já preparado toda a pré-época.

Nessa altura não me lembro de ninguém pedir a cabeça de alguém.

Mas pelos vistos alguém anda com elevados níveis de ansiedade emocional: parece que foram 10 os sócios saudosos de Bruno de Carvalho que já se manifestaram a pedir cabeças. Aliás pedir cabeças, e rachar cabeças, é o que esses leais sportinguistas sabem fazer de melhor.

É o problema da memória emocional: mas as contas fazem-se sempre é no fim.

Carlos Reis

 

 

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