Heduíno Gomes
12/01/2019
Para que servirá o Sporting?

 

Ao ser convidado a colaborar neste sítio de sportinguistas, ocorreu-me escrever sobre um conjunto de temas relacionados entre si e concorrendo para uma reflexão sobre o que nos anima. Isto é, que andamos por aqui a fazer?

Começar pelo princípio das coisas é responder à pergunta que a todos nós, sportinguistas, se deve colocar: — Qual o objecto do Sporting?

Quando falo em Missão Sporting, quero precisamente evidenciar a necessidade de saber-se qual o objecto do Sporting, para que serve, e daí saber-se o que andamos por aqui a fazer.

Para alguns, o Sporting Clube de Portugal é naturalmente um local de prática de desporto. São as pessoas viradas para o corpore sano pela via do exercício físico.

Para outros, o Sporting Clube de Portugal será um passatempo. Não possuindo outros interesses para aplicar o tempo, encontram aqui uma maneira de se distraírem.

Outros haverá para quem o Sporting Clube de Portugal é um meio de encontrar pessoas, de conviver, de estabelecer relações.

Para outros ainda — não nos iludamos — o Sporting Clube de Portugal é encarado sobretudo como um meio de afirmação pessoal ou de obtenção de benefícios pessoais de vária ordem.

Para a grande maioria, o Sporting Clube de Portugal é, contudo, uma paixão, de origem mais racional ou mais irracional. Por vezes, essa paixão, como são as paixões, até extravasa e se torna assolapada, em certos casos rondando mesmo a alienação.

E outros modos haverá de entender o Sporting Clube de Portugal.

Contudo, sem ignorar quaisquer das perspectivas já referidas ou outras não referidas, existe o modo concreto de entender o Sporting Clube de Portugal que é aquele que presidiu à sua fundação e que tem sido continuadamente consignado nos Estatutos, no seu objecto social, e que nunca deverá ser esquecido, principalmente por aqueles sportinguistas que constituem as forças vivas do Clube, isto é, o núcleo que o pensa ou dirige.

Traduzindo o nome do Sporting Clube de Portugal, seria qualquer coisa como Clube de Desportos de Portugal. A sua vocação específica é o desporto, vocação que, dada a sua polivalência, cumpre como poucos no mundo. Contudo, qualquer instituição, pelos valores ou antiva­lores que transmite, ou não transmite, não escapa a contribuir positiva ou nega­ti­vamente, explicitamente ou por omissão, para a educação ou deseducação moral e cívica das pessoas sobre as quais exerce a sua influência. Eis, pois uma forma de introduzir a resposta à questão anteriormente colocada.

 

Que propósitos estiveram na fundação do Clube

e a que podemos chamar seu objecto superior ?

Como clube desportivo, o Sporting Clube de Portugal tem naturalmente como objecto específico a educação física e a prática do desporto. É formalmente ponto consensual que, por essa via, possa «concorrer para o engrandecimento do desporto e do País», como aliás continua a constar nos actuais Estatutos (Art. 5.º).

Podemos então definir como objecto superior do Clube «concorrer para o engrandecimento do desporto e do País», significando isto que a utilização do fenómeno desportivo deve concorrer para transmitir à massa os valores que  fizeram  o Sporting  Clube de Portugal e que, de um modo geral, o têm guiado desde a sua fundação: os valores morais da Civilização a que pertencemos e os valores nacionais. São especificamente estes valores que, ao longo dos anos, têm distinguido o Sporting  Clube de Portugal dos clubes do vale tudo e da frutaria, já sem falar de outros de menor dimensão como os da cafeína.

Ao mesmo tempo, é a especificidade desportiva do Sporting Clube de Portugal que o distingue de outras instituições educativas que existem em Portugal. Mas a sua especificidade não poderá ofuscar, nem menorizar, nem fazer esquecer o seu objecto superior. Aliás, este objecto educativo deveria ser, em princípio, comum a todos os os clubes e não apenas do Sporting Clube de Portugal, tanto em palavras como na prática.

 

A que podemos chamar objecto superficial do Clube?

Podemos dizer que o objecto superficial do Clube é o objecto apenas desportivo ou meramente recreativo do Clube. Cor­responde a uma visão restrita e superficial do Clube, contribuindo, mesmo que inconscien­temente, para a alienação da massa através de um desporto sem valores, de um entreteni­mento fútil e de uma indústria sem moral.

Com o aparecimento da SAD Futebol, surgiu no objecto social desta extensão do Clube — extensão: é assim que devemos encarar uma SAD do Clube — a gélida fórmula «promoção e organização de espectáculos desportivos», objecto completamente despojado de alma. Quer isto dizer que esta extensão do Sporting Clube de Portugal ignora completamente a matriz do corpo principal. Nela, a dominante é o economicismo, filoxera que mata o ideal sportinguista.

Poderá dizer-se que uma SAD é uma sociedade anónima como qual­quer outra. Não é! Se assim o entenderem os tecnocratas que a fundaram, entenderam mal. A justificar-se a sua existência, deveria ser uma empresa dedicada à nossa causa, à promoção dos valores do Clube. Não quer isto dizer que não devesse ter uma gestão rigorosa. Com certeza. Mas, infelizmente, não são os tecnocratas dos milhões — afinal de passivo! —, que assim desenharam a SAD Futebol, que nos podem vir ainda agora dar lições de gestão! Contudo, alguns deles continuam a ir às televisões gabar pateticamente aquilo que não foi mais do que o afundamento financeiro do Sporting Clube de Portugal associado à invasão de mercenários e ao esvaziamento dos ideais sportinguistas.

Como se vê, existem mesmo várias perspectivas sobre o Sporting Clube de Portugal!…

 

(Este texto contém algumas passagens do livro a publicar Levantai Hoje de Novo o Sporting de Portugal.

 

 

 

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