Entrevista a Filipe Ribeiro, líder da Claque DUXXI

Filipe Ribeiro

Vamos mergulhar no mundo das claques com o líder do Directivo Ultras XXI

O Directivo Ultras XXI, também conhecido pelo acrónimo DUXXI, é uma claque oficial do Sporting Clube de Portugal, fundada a 17 de Maio de 2002. O DUXXI é a segunda claque do Sporting com maior massa associativa, contando com cerca de 5.000 elementos. Com dezasseis anos de história o DUXXI é reconhecido pelo seu prestígio em Portugal pelos diversos cânticos e a sua originalidade que rapidamente “pegam” entre os adeptos do Sporting e todo o universo leonino. O Directivo começou por se situar no Topo Norte do antigo Estádio José Alvalade e hoje está situado na bancada Sul no sector A18.

 

Bom dia Filipe Ribeiro e obrigado por aceder a esta entrevista para a Tribuna Leonina.

O Filipe é o líder do Directivo e antes de irmos à claque, em si, queremos saber quem é o homem por detrás do líder. Quem é o Filipe no dia a dia?

Boa tarde, em primeiro lugar agradeço e acedo a esta entrevista essencialmente pela necessidade de mostrar, desmistificar e elucidar alguns temas mais ou menos mediáticos que levam com que a opinião publica sobre grupos ultra, claques ,GOAS ou seja, denegrindo e manipulando a opinião pública, sempre sem contraditório e para servir diversos interesses que gravitam no futebol.

Começando pelo principal, sou um sócio activo apoiante e que pago quotas há quase 30 anos, que desde cedo se deslocou ao velho estádio, frequentei os campos de treino, o Pavilhão B, a Nave, a mítica Porta 10 A e que fui à maioria das assembleias gerais do Clube. Dedico-me a apoiar qualquer escalão ou modalidade com maior ou menor dificuldade!  Foi este ambiente e a mentalidade em que cresci e que ao longo da minha vida tenho vindo a aprimorar e adaptar aos tempos de hoje em dia.

O meu dia a dia esse é absorvido quase 24 horas com assuntos relacionados com o Sporting e com o Directivo, somos seguidores de um grande amor, pela dedicação ficando na maioria das vezes a família para segundo plano.

 

Imagino que não tenha um único fim de semana livre, excepto aqueles em que não há jogos. Como concilia a liderança de uma grande claque com a família?

Um fim de semana é realmente muito raro!

Convém reforçar que o Sporting não é só futebol e também não só ao fim de semana! Sempre foi assim, marcar presença nas modalidades desde pequeno, agora com mais modalidades e tendo a nossa casa, o nosso pavilhão João Rocha. Só para lhe deixar uma ideia, no 1º ano de pavilhão, estivemos presentes em mais de 100 jogos, acrescendo os jogos fora de casa. Por estes dados ficam com a ideia de como é difícil equilibrar toda actividade do Clube/grupo com a familiar.

Neste caso tem de haver muita compreensão e sensibilidade por parte da família para que se consiga conciliar ambas as paixões.

 

Está na claque desde a sua fundação? Conte-nos, porque aderiu?

Sim com orgulho desde a fundação.

Porque ULTRA é dar tudo em prol da defesa do Clube e do grupo e sentir ter capacidade de ajudar e passar à pratica um novo projecto e mentalidade ULTRA, sempre com o  SPORTING CLUBE DE PORTUGAL na mente.

 

Como foi o seu percurso?

Bem cedo!

Dos 10 aos 12  anos, ía com os meus tios para a central. A partir dos 14/15 anos, aos intervalos, fugia para a curva. Era contagiante! E bem diferente era a minha cara e teria que me juntar aqueles que passavam o jogo de pé a cantar e bater palmas. Já conhecia todos os fiscais da altura e lá passava para a superior sul… mas voltar a central já não deixavam e isso era desculpa para os meus tios, para  poder permanecer até ao fim do jogo e sair com a claque. E isto foi o motor de  arranque para ir a cada vez a mais jogos e como já não chegava em Alvalade, tinha de ir fora. E é fora onde realmente sentimos o orgulho em  defender a nossa equipa. Mais tarde fui-me juntando com malta da escola, zona e amigos do Sporting e com os anos fomos aumentando criando uma LINHA de amizade na rua e na bancada!

Comecei a estar no centro do apoio e quando o pessoal ía abaixo, mesmo sendo mais novo, era dos últimos a desistir… de tal forma fui pegando no tambor, formar a mostrar na curva e no campo a força do Sporting, passando horas, dias e anos seguidos atrás daqueles que vestem o leão ao peito. Vamos ganhando a mentalidade necessária para ultrapassar momentos difíceis, que existem neste estilo de vida, a experiência e gosto de sermos melhores e diferentes. Isso leva-nos a despertar outras capacidades e foi isso que me aconteceu… passei por, digamos assim, o primeiro degrau mas não sei qual é o ultimo pois um percurso ULTRA só termina com a nossa morte!

 

Filipe, o que é ser ULTRA?

Podia dizer frases coerência, respeito, lealdade, honra, irmandade mas é mais ainda. Como referi anteriormente, é dar tudo, é ir mais além do que imaginamos em todos os sentidos por um amor e ideal. É essa a dificuldade que existe da maioria em perceber algumas atitudes !

Costumo dizer “fazemo-nos ultras” por mais ações, mais vivência e experiência passada que nos alimentam o espírito de dar mais ainda, de conviver e partilhar a paixão pelo Clube e grupo, as dores e alegrias pensar sempre em grupo e isoladamente! Não e só estar 90 minutos a cantar de pé a abanar bandeiras e cachecóis! Ir a todo o lado de qualquer maneira, isso será sempre o mínimo para um ultra !

 

Muitas vezes vemos as coreografias das claques. Imagino que trabalhar aqueles lençóis dê imenso trabalho. Como o fazem? Quanto tempo demoram? Onde pintam? Quem desenha?

O trabalho é importante. As verbas para encomenda de materiais, o empenho e colaboração dos membros, também. Mais importante ainda é, muita das vezes, as autorizações, a criatividade e a originalidade! Começamos com largos meses a pensar, discutir as ideias e calendarizar as coregrafias, consoante as datas, e pensamos todas as fazes do projeto, preparando a melhor logística para o maior impacto possível. Pintamos e colamos onde conseguirmos… na sede, no parque, no pavilhão, no estádio! A maioria das vezes as coreografias são efectuadas à noite, porque a maioria trabalha e também tende a ver com a disponibilidade do pavilhão. São estes momentos em que nos dedicamos a fazer o que mais gostamos, de mostrar o nosso amor, organização, empenho, dedicação e força.

 

Como preparam um jogo?

Naturalmente com a quantidade de jogos no estádio e pavilhão obriga a ter muita gente dedicada mas, como fazemos tantas vezes, já temos automatismos naturais. Ajudamo-nos uns aos outros consoante disponibilidade de pessoal para as diversas áreas.

 

Os jogos com os rivais são preparados de forma especial?

A importância da preparação do jogo é fundamental. Muito material como sejam bandeiras, estandartes, faixa, tambor e megafone é decidido conforme as variadíssimas ocasiões e dependendo da equipa, se em casa ou fora, se em Portugal ou no estrageiro, modalidade e atualidade do momento. A classificação e liberdade de expressão também nos leva a ter ações de frases ou coreografias.

 

Estão entre a Torcida Verde e a Juventude Leonina. Como coordenam quem canta? Explique-nos como funcionam 90 minutos de futebol. Fale-nos da importância do capo.

A disposição dos grupos oficiais do SPORTING na curva não é de longe a melhor! Mas fazemos um grande esforço para tentar articular todo o apoio que é bem audível no estádio. Durante os 90 minutos existem muitas condicionantes que temos que combater jogo a jogo para conseguirmos ter um apoio condigno ao nome dos grupos e curva, desde o sistema de som e falta de sensibilidade do speaker nos momentos de golo, decidimos os cânticos consoante a mensagem que queremos passar nas necessidades, cântico de apoio em diferentes ações de jogo que são diversas. Muitas vezes tenho dificuldade em perceber sobrepor o nome do grupo ao próprio Clube em cânticos no estádio! Muito devido a falta reconhecida de encaixe. Existe muito boicote às nossas músicas pois sabendo a quantidade e originalidade que temos, diversos cânticos com letras e melodias, leva a que pensem que queremos ser mais que alguém. Fazemos somente e naturalmente que sabemos fazer melhor, isto é, criar e inovar cânticos!

O capo é muito importante. Tem de ter capacidades e características especiais de motivar a curva com os cânticos e mensagens fortes, capacidade de, no meio de 837 cânticos, escolher o mais adequado ao momento do jogo para dar forca à equipa! Colocação de timbre no início dos cânticos! Ter que marcar o ritmo com o tambor! Muita capacidade de improviso, visão de jogo e bancada e muita energia e interação!

 

Vamos imaginar que alguém na claque constrói um cântico. Como o passa aos demais?

Apresenta a ideia, ritmos e letra. Depois é o dom de enquadrar uma letra enquadrada à melodia. Muito tempo juntos a criar e cantar. E temos o capo que dá o toque final para se divulgar!

 

Filipe, as claques acompanham o Sporting em casa, mas igualmente fora, inclusive no estrangeiro. Como é possível conciliar emprego, família e esta dedicação abnegada ao Sporting?

É possível porque na maior parte das vezes pomos tudo para segundo plano! Depois sofremos as consequências… Fazemos o máximo que as possibilidades nos permitem e vivemos assim a organizar e planear para irmos a todas! ULTRAS!

 

Qual a melhor viagem que fez com o Directivo?

A melhor são todas e ainda virão mais! …..são muitas e boas, cada uma no seu estilo e categoria… ficava aqui um dia ! Depois escrevo um livro! (risos)

 

Tem alguma história engraçada que nos possa contar?

Tenho muitas, por exemplo, sair sozinho de carro a uma 6 feira para Guimarães e levar o tambor comigo para me juntar aos restantes, para dar festival e empurrar a equipa para a vitoria, mas porque eramos poucos, mas bons e o tambor fora fazia toda a diferença! Na tasca ou na bancada a festa era garantida!

 

Como vê a importância das claques no Sporting?

Acho que só darão a importância devida e o reconhecimento correto quando realmente faltarmos no apoio e defesa do Clube!

 

As claques têm um poder que vai além da função de apoiar o Clube?

Vivendo o Clube e seu dia a dia, a nossa função é honrar e dignificar o Clube à nossa maneira, com a nossa mentalidade e presença!

 

Filipe, para terminar. Quantos membros tem o Directivo? E se quisesse apelar aos jovens a sua adesão à claque, o que lhes diria?

Neste momento cerca de 2.000 Sócios.

Aos mais jovens diria que transformem a sua paixão pelo Sporting com a sua presença nos estádios e pavilhões, seja em casa e fora e que no Directivo estamos sempre com o Sporting na mente.

 

Filipe Ribeiro, líder do Directivo Ultras XXI, muito obrigado pela disponibilidade.

Até breve e felicidades para si e para o DUXXI.

Close Menu